Morre Belchior: "o fim do termo saudade" é apenas o começo



Confesso que adiei a hora de escrever este post porque queria que chegassem outras informações que dissessem: "tudo não passou de um engano". Que Belchior não morreu. Que ele está bem, vivendo tranquilo na cidadezinha que escolheu no interior do Rio Grande do Sul... Essas outras informações não chegaram. Não chegarão.

Conheci  Belchior - o Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes - no início dos anos 2000 na redação da Rádio Jornal AM (Recife) onde fazia estágio como produtora no programa de Geraldo Freire. Era manhã de uma sexta-feira, por volta das 10h30, quando o cantor - muito educado, elegante e cheiroso - entrou na nossa sala, cumprimentou a todos, sentou-se numa das cadeiras giratórias e disse: "Cheguei cedo! Vim cedo para não correr o risco de me atrasar". Ele era o convidado daquele dia para o Debate das 11h, com Geraldo.

Dali, todos (eu e os outros estagiários e profissionais) paramos para admirar, conversar, perguntar, saber mais, pedir autógrafos nos LPs da emissora... Ele respondeu a todos, fez dedicatória nos discos e contou ao nosso chefe de reportagem que tinha vontade de ir embora do Brasil (aquele era um ano de eleição e ele não estava satisfeito com a nossa política). Naquele momento, o pessoal da TV Jornal também já estava na nossa sala e o papo rolava solto. 

De mim, se admirou. Perguntou: "Você tem idade para trabalhar menina?". Já estava com meus 22 anos, mas todos questionavam porque parecia que tinha menos idade. Ri, e respondi: "Tenho 22, nem parece, mas já tô ficando coroa!" Todos riram e ele me disse: "Ande sempre com os documentos, tens cara de 15 anos!". Aproveitei e disse: "Cara de 15 anos, mas sou sua fã há pelo menos uns 16!". Ele me deu um longo e carinhoso abraço e agradeceu. Também agradeci por ele, por sua obra, suas letras e canções.

E assim, a hora foi passando. Ele teve que ir para o debate no estúdio. Ficamos todos ali, no "aquário" admirando-o, ouvindo-o. Na entrevista, falou de música, sexo, da faculdade de medicina que largou para se dedicar à música, casamentos feitos e desfeitos, política, gosto por carros antigos, coleção de relógios, entre outros temas. Antes de ir embora abraçou a todos, um a um, desejou sorte e disse que em algum dia na sua vida já tinha sonhado em ser repórter de rádio. O nosso chefe então ofereceu um emprego conosco... Ele saiu rindo sem parar. Não faria show no Recife naquele dia, estava de passagem, indo de Fortaleza para São Paulo.

E assim, ele foi. Parecia um sonho! Fiquei sentindo o cheiro forte dele o resto da tarde. Esse dia terminou no Bar Royal (Recife Antigo), com amigas e amigos, ouvindo Belchior na radiola de ficha... Lembro que coloquei muitas fichas para ouvir Coração Selvagem, A Palo Seco e Tudo Outra Vez, as minhas preferidas... Foi uma noite memorável!

Hoje veio essa triste notícia: "Morre aos 70 anos o cantor e compositor Belchior". Não teremos mais bate-papo pré-entrevista, entrevista, abraços, histórias, estórias... Como transcrevi no título dessa matéria, da canção dele - Tudo Outra Vez - '"...o fim do termo saudade" é apenas o começo!' Vai em paz, Belchior! A sua música e a sua história ficarão para sempre entre nós! 

Confira a playlist que montei no Spotify, em homenagem a Belchior:

Leia mais:
Do jornalista José Teles para o Jornal do Commercio.

Por Jotabê Medeiros, colaboração para o Portal UOL.

Via O Blog da Ruiva, por Rafaela Pacheco.

Belchior durante show em São Paulo em 1979.
 (Foto: Benedito Salgado/Estadão Conteúdo).
Morre aos 70 anos o cantor e compositor Belchior - O cantor e compositor Belchior morreu na madrugada deste domingo, 30, em Santa Cruz do Rio Grande do Sul, aos 70 anos. Familiares confirmaram o falecimento, entretanto, a causa ainda é desconhecida. O corpo deve ser levado para o Ceará ainda hoje. O sepultamento deve ocorrer em Sobral.

O Governo do Estado do Ceará confirmou a morte e decretou luto oficial de três dias. “Recebi com profundo pesar a notícia da morte do cantor e compositor cearense Belchior” disse em nota o governador Camilo Santana. “O povo cearense enaltece sua história, agradece imensamente por tudo que fez e pelo legado que deixa para a arte do nosso Ceará e do Brasil”. (Via Brasileiríssimos).

Análise preliminar indica que Belchior morreu por rompimento de artéria aorta - A informaçõa é da delegada Raquel Schneider que falou com o médico do IML da cidade de Cachoeira do Sul, responsável pela necropsia em Belchior. "Esse deve ser o resultado que vai vir no laudo depois. 

Claro que também serão feitos mais alguns exames, mas em princípio foi isso", afirmou a delegada. Mais cedo, Angela Margareth, ex-mulher do músico, havia dito que a causa da morte foi um infarto. A delegada disse que o médico não levantou essa possibilidade durante a conversa.

Corpo do cantor Belchior foi levado para o IML de Cachoeira do Sul.
 (Foto: Muriel Porfiro/RBS TV).
Ainda durante a tarde deste domingo (30), a polícia de Santa Cruz do Sul já acreditava que a morte tivesse causas naturais. "Não havia sinais de violência, nada indicou qualquer outra coisa. Segundo a esposa, Edna, ele não usava medicação, não apresentava problemas de saúde. Eles disseram que sequer tinham remédios em casa", havia comentado a delegada.

De acordo com amigos, o artista vivia há quatro anos no município localizado na região do Vale do Rio Pardo, no Rio Grande do Sul. Há um ano e meio ele morava na casa onde morreu, com a esposa Edna. A residência foi cedida a ele por um amigo.

O Governo do Estado do Ceará confirmou a morte e decretou luto oficial de três dias. "Recebi com profundo pesar a notícia da morte do cantor e compositor cearense Belchior", diz em nota o governador Camilo Santana. "O povo cearense enaltece sua história, agradece imensamente por tudo que fez e pelo legado que deixa para a arte do nosso Ceará e do Brasil" (veja íntegra da nota abaixo).

O traslado do corpo será feito pelo Governo do Ceará, que aguarda liberação das autoridades gaúchas. A assessoria do governo disse também que o chefe da Casa Militar do Ceará, coronel da Polícia Militar Túlio Studart, entrou em contato com o chefe da Casa Militar do RS, e que eles aguardam o resultado do laudo oficial.

Belchior, durante show em São Paulo em 1988.
 (Foto: Ana Cristina leme/AE ).
Veja a íntegra da nota oficial do Governo do Ceará:

"O Governo do Ceará lamenta profundamente o falecimento do cantor e compositor cearense, Belchior, aos 70 anos, na noite deste sábado, 29, na cidade de Santa Cruz, no Rio Grande do Sul. E informa que está prestando todo o apoio à família, inclusive providenciando o traslado do corpo para Sobral, sua cidade natal. 

O governador Camilo Santana está decretando luto oficial de três dias. Belchior é dono de uma trajetória artística da mais absoluta importância para a cultura do Estado. Sua carreira o levou ao patamar de um dos maiores ícones da Música Popular Brasileira, promovendo o nome do Ceará em todo o Brasil e no mundo".

Nascido em 26 de outubro de 1946, Belchior foi um dos ícones mais enigmáticos da música popular no Brasil, com mais de 40 anos de carreira. Teve o primeiro sucesso nos anos 70 ao lado do também cearense Fagner, com a faixa "Mucuripe". 

Com o disco "Alucinação" (1976), lançou clássicos como as faixas "Apenas um rapaz latino-americano", "Velha roupa colorida" e "Como nossos pais", essa última que se tornou conhecida na voz da cantora Elis Regina.

Paradeiro

Segundo o colunista do G1 Mauro Ferreira, o cantor não tinha paradeiro certo desde 2008. Em 2007, a família reclamou do sumiço do artista, que abandonou a carreira; e nem mesmo seu produtor musical conseguia contato. A partir daí, foram surgindo boatos a respeito do paradeiro do cantor.

Segundo reportagem do Fantástico, Belchior abandonou ao menos dois carros, sem explicação. Um deles, deixado no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, acumulando milhares de reais em dívidas de estacionamento. Outro veículo, uma Mercedes Benz do cantor, foi largado em um estacionamento também em São Paulo, onde ele morava antes de ir para o Uruguai.

Belchior chegou a ser procurado pela polícia em 2012 devido a uma dívida, à época, de US$ 15 mil em um hotel na cidade de Artigas, no Uruguai, por seis meses de diárias. No fim daquele ano, em meio à polêmica, foi visto em Porto Alegre, mas não quis gravar entrevista.

Cantor e compositor Belchior em retrato de 1987.
(Foto: Silvio Ricardo Ribeiro/Estadão Conteúdo).
Trajetória

Na infância no Ceará, Belchior estudou piano e música coral e trabalhou no rádio em sua cidade natal. Seu pai tocava flauta e saxofone e sua mãe cantava em coro de igreja. Mudou-se em 1962 para Fortaleza, onde estudou Filosofia e Humanidades. Também chegou a estudar medicina, mas abandonou o curso em 1971 para se dedicar à música.

Começou apresentando-se em festivais pelo Nordeste. Depois do sucesso de "Mucuripe", mudou-se para São Paulo, onde compôs trilhas sonoras para filmes e passou a fazer shows maiores e aparições em programas de televisão. Em 1974, lançou seu primeiro disco, "A palo seco", cuja música título se tornou sucesso nacional e ganhou versões ao longo da história, como a de Oswaldo Montenegro e da banda Los Hermanos.

Outros artistas também regravaram sucessos de Belchior, entre eles Roberto Carlos ("Mucuripe") e Erasmo Carlos ("Paralelas"), Engenheiros do Hawaii ("Alucinação"), Wanderléa ("Paralelas") e Jair Rodrigues ("Galos, noites e quintais"). Elis Regina foi uma de suas maiores intérpretes: além de "Como nossos pais", gravou "Mucuripe", "Apenas um rapaz latino-americano" e "Velha roupa colorida".

Em 1982, o cantor lançou "Paraíso", que tem participações dos àquela época ainda jovens artistas Guilherme Arantes, Ednardo Nunes, Jorge Mautner e Arnaldo Antunes. Fundou sua própria gravadora e produtora, a Paraíso Discos, em 1983. Ao longo da carreira, Belchior teve mais de 20 discos lançados. (Via Portal G1/RS).

(Foto: Reprodução/Pinterest Lan Truong).
Belchior: 10 músicas para entender a carreira do artista - Ao longo dos quase 40 anos de carreira, Belchior foi um artista enigmático, mas também revelou sentimentos que embalaram gerações. Compôs letras que retratam o amor, as angústias da juventude, a saudade de casa, a dureza das cidades e o medo de avião, mas também soube refletir sobre política e sociedade em uma produção de mais de 20 discos.

"Mucuripe" (1972)
Primeiro sucesso de Belchior, que criou a música com o amigo Fagner. Foi gravada por Elis Regina no álbum "Elis", de 1972. Foi a partir de então que o artista cearense se tornou conhecido nacionalmente e, mais tarde, mudou-se do Ceará para São Paulo. A canção também ganhou uma versão de Roberto Carlos.

"A palo seco" (1974)
Música que deu título ao primeiro disco do cantor, e também entrou no "Alucinação" (1976). Um de seus primeiros sucessos, ganhou algumas versões no decorrer da história, entre elas a de Oswaldo Montenegro e a do grupo Los Hermanos - que chegou a cantá-la junto ao próprio músico.

"Alucinação" (1976)
Fala sobre a rotina, a juventude e a solidão das pessoas nas capitais, um tema recorrente da produção de Belchior. Eternizou uma de suas frases clássicas - "amar e mudar as coisas me interessa mais" - e deu nome ao segundo álbum do cantor.

"Como nossos pais" (1976)
Na voz de Elis Regina, que a incluiu no álbum "Falso brilhante" (também de 1976), se tornou um dos maiores clássicos da música brasileira. Apareceu também no segundo álbum do compositor, "Alucinação". Em meio ao regime militar no Brasil, a letra retrata a desilusão de uma juventude reprimida, mas também fala de esperança e luta por mudanças.

"Apenas um rapaz latino-americano'" (1976)
Uma das muitas canções que narram a experiência pessoal do cantor ao deixar o Ceará. Também faz uma crítica irônica ao autoritarismo do período, que afetava a criação dos artistas: "Não me peça que eu lhe faça / Uma canção como se deve / Correta, branca, suave / Muito limpa, muito leve". Também foi lançada no disco "Alucinação".

"Coração selvagem" (1977)
Um hino romântico do músico, lançada no álbum que é considerado por muitos sua obra-prima. Uma espécie de blues à brasileira, com letra e melodia intensas. Recentemente, voltou às rádios em uma versão da cantora Ana Carolina.

"Todo sujo de batom" (1977)
Mais uma do disco "Coração selvagem". Fala sobre as inspirações para compor e as angústias da juventude, tema recorrente em seu repertório.

"Divina comédia humana" (1978)
Belchior era um fã declarado da "Divina comédia", de Dante Alighieri, e chegou a tocar projetos inspirados na obra. Aqui, ele faz sua versão musical, que fala sobre o céu e o inferno de um amor. A canção faz parte do disco "Todos os sentidos". 

"Medo de avião" (1979)
Outro assunto que apareceu algumas vezes na produção do artista foi seu medo de avião. A mais famosa canção sobre o assunto, do disco "Era uma vez um homem e seu tempo", conta a história de um homem que se apaixonou durante um voo - ao segurar a mão da amada para aliviar o temor. 

"Tudo outra vez" (1979)
Nessa, Belchior fala sobre estar longe de casa. Lançada no ano em que foi promulgada a Lei da Anistia, a letra foi interpretada como um retrato do sentimento dos exilados pela ditadura militar. Também faz parte do álbum "Era uma vez um homem e seu tempo". (Via Portal G1/Música).

Por Zalxijoane Lins.
Foto de capa: Antonio Lúcio/Agência Estado - Belchior durante entrevista em São Paulo em 1986.
(Ao copiar informações daqui, favor inserir os créditos).

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